Um Matuto em Sampa (01)
“E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”
(trecho de Sampa, de Caetano Veloso)

Enquanto Ral está dando uma guaribada arretada no Ralmanaque, pedi a ele um espaço no modelo que ainda está publicado para contar as coisas que estou vendo aqui em São Paulo, onde vir participar de um congresso com matutos paulistas, aqueles que falam assim": "Senhooorrrrr.
É isso aí, não vim como um "pau-de-ara", como muitos outros irmãos nordestinos vinham pra servir de mão-de-obra barata nas obras de construção e outros serviços pesados, nem tampouco vim para passear como outros matutos mais folgados. Aliás, não vim pra capitá. Vim pro interior mermo. Mas, na capitá, que Caetano Veloso chama de Sampa (numa canção bonita da gota serena) vou passar uns três dias pra resolver uns troços. Cheguei ontem e fui recibo pelo primo Djalma, um cara tão legal, tão bom, que devia ser preso pra ninguém bolir com ele. Matuto de Belo Jardim, ele veio pra cá ainda criança e conheceu a velha Sampa nos tempos dourados, quando se podia andar à noite nas ruas, como se estivesse passeando num shopping. Entrei no seu Honda e fiquei imaginando o meu velho Monza 95 deixado na garagem sem eu ter desligado os cabos da bateria. Pois é, quando voltar pro Recife, a desgraçada vai está descarregada. Ral, mano véi, tu vai ter que ajudar a empurrar o monzão, com essa tua musculatura de Suaxenegue.
Bem, e lá vou eu no carrão do primão adentrando na selva de pedra. Aí começou a decepção do matuto. Por onde a gente passava só se via lixo espalhado nas calçadas e debaixo dos viadutos, misturado com mendigos sujos e maltrapilhos (isso é uma redundância?). Quando a gente passava por locais onde tempos atrás o matuto passava sempre com sua matuta, como a Rua Ipiranga, Praça da República, com sua "feira hippie", Largo do Arouche, onde certo tempo morou um irmão meu, o primão alertou:""Não ande por aqui sempre, principalmente à noite, pois só tem gente da pesada, como traficantes, drogados, prostitutas e prostitutos. Grande parte dessa área é conhecida por Cracolândia."Não acredito”, pensei comigo. Quer dizer que aqui tá pior do que o Recife? Lembrei-me que New York, há muito tempo atrás era o que São Paulo é agora: uma cidade altamente violenta. Mas houve uma determinação política do seu prefeito e a maior cidade do mundo transformou-se num verdadeiro paraíso. Dava pra gente andar tarde da noite com filmadora em punho, filmando a beleza da cidade sem nenhum medo. Vejo que em Sampa, se fizermos o mesmo ficaremos sem filmadora, celular, carteira, a roupa e talvez até a vida. Cadê as otoridades e os puliticos da maior cidade da America Latina, que deverá ser também a que tem o maior orçamento e maior arrecadação de impostos? Já estou com saudades da sujeira e da violëncia do Recife.
Ruyvão (limaruy@gmail.com)
PS de RAL - Não resisti, Ruyvão, em "tomar emprestado" e publicar acima a charge do genial Angeli (com certeza o cartunista que melhor retrata Sampa).

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